Como reduzir falhas e consumo de graxa com ultrassom industrial

Como reduzir falhas e consumo de graxa com ultrassom industrial

É possível usar o ultrassom não apenas para detectar problemas, mas para reduzir falhas e consumo de graxa de forma consistente e mensurável?

A resposta é sim, desde que o ultrassom seja incorporado como método estruturado dentro da estratégia de manutenção, e não apenas como ferramenta pontual de inspeção.

Quando utilizado apenas para “ouvir ruídos anormais”, seu potencial fica limitado. Porém, quando integrado ao processo de decisão da lubrificação, ele transforma a forma como os ativos são gerenciados.

O custo invisível da lubrificação mal executada

Grande parte das plantas industriais ainda opera com modelos tradicionais de lubrificação baseados em:

  • Aplicação por calendário fixo;

  • Quantidade padronizada por ponto;

  • Decisão baseada na experiência individual;

Esse modelo cria dois problemas recorrentes:

  • Sobrelubrificação crônica

  • Sublubrificação silenciosa

Ambos reduzem a vida útil dos rolamentos.

A sobrelubrificação provoca aumento de atrito interno (churning), elevação de temperatura, ruptura do espessamento da graxa e degradação acelerada do lubrificante. Já a sublubrificação favorece microcontatos entre metais, desgaste progressivo e fadiga superficial.

O paradoxo é que, muitas vezes, o plano é executado corretamente, mas a condição real do ativo não é considerada.

Lubrifica-se porque está no plano, não porque o ativo precisa.

É exatamente nesse ponto que o ultrassom altera a lógica da decisão.

O que o ultrassom permite enxergar

Quando o filme lubrificante se torna instável, surgem microimpactos e fricção localizada entre as superfícies. Esses fenômenos geram emissões acústicas de alta frequência, detectáveis por sensores ultrassônicos.

Antes de qualquer aumento relevante de temperatura ou alteração significativa na vibração global, o nível ultrassônico começa a se elevar.

Isso cria uma oportunidade valiosa: intervir quando o desgaste ainda é reversível ou, no mínimo, contido.

O ultrassom mede o fenômeno físico do atrito, não o efeito térmico acumulado nem a consequência estrutural já instalada.

Essa diferença é determinante, porque antecipa a falha dentro da janela PF (Falha Potencial – Falha Funcional), ampliando o tempo disponível para correção planejada.

Relubrificação guiada por condição

Um dos maiores desperdícios na indústria ocorre na aplicação de graxa. Em muitos casos, utiliza-se uma quantidade fixa definida por tabela, sem considerar:

  • Estado atual do rolamento;

  • Condição do lubrificante existente;

  • Regime de carga e velocidade;

  • Ambiente operacional; e

  • Histórico do ativo.

Com o ultrassom, o procedimento muda de forma objetiva.

Passo a passo estruturado:

  1. Estabelecer uma linha de base (baseline) do ponto;

  2. Monitorar tendência de aumento do nível ultrassônico;

  3. Definir limiar de intervenção baseado em variação percentual;

  4. Aplicar graxa de forma gradual;

  5. Acompanhar redução do sinal em tempo real; e

  6. Interromper quando o valor se estabilizar.

Se o nível cair e estabilizar, o filme foi restabelecido.
Se o nível aumentar durante a aplicação, pode haver excesso ou defeito mecânico já instalado.

Esse controle elimina a aplicação “no escuro” e transforma a lubrificação em processo técnico monitorado.

Redução de consumo de graxa

Quando a relubrificação passa a ser guiada por condição, dois efeitos estruturais ocorrem:

  • Ativos que não necessitam deixam de receber graxa.

  • Ativos que necessitam recebem apenas o volume necessário.

Na prática, programas estruturados de ultrassom frequentemente registram reduções expressivas no consumo anual de graxa.

Essa economia ocorre por:

  • Eliminação da sobrelubrificação;

  • Ajuste real de intervalos;

  • Redução de retrabalho;

  • Menor descarte de lubrificante contaminado; e

  • Menos purga excessiva;

Além da economia financeira direta, há impacto ambiental positivo, menos resíduo, menos descarte e menor risco de contaminação do ambiente.

Em plantas de grande porte, a redução acumulada pode representar economia significativa ao longo do ciclo anual.

Redução de falhas prematuras

Falhas relacionadas à lubrificação seguem um ciclo previsível:

Instabilidade do filme → microdesgaste → aumento de rugosidade → degradação progressiva → vibração elevada → aquecimento → falha funcional.

O ultrassom atua no início dessa cadeia.

Ao corrigir a condição antes que o desgaste superficial evolua, aumenta-se a vida útil efetiva do rolamento e preserva-se a integridade da pista e dos elementos rolantes.

Isso reflete diretamente em indicadores como:

  • Aumento do MTBF (Mean Time Between Failures);

  • Redução de intervenções corretivas;

  • Menor variabilidade entre ativos semelhantes; e

  • Diminuição de falhas repetitivas;

Mais importante: aumenta a previsibilidade operacional.

A manutenção deixa de ser reativa e passa a ser baseada em evidência física mensurável.

Impacto na padronização e cultura técnica

Outro benefício relevante é a padronização do processo.

Sem ultrassom, a lubrificação depende fortemente da experiência individual do técnico. Com ultrassom:

  • A decisão é baseada em tendência mensurável;

  • O ponto ideal de aplicação é determinado tecnicamente;

  • O procedimento pode ser replicado entre turnos e equipes; e

  • O erro humano é reduzido.

Isso diminui variações operacionais e cria consistência, elemento essencial em plantas com múltiplos operadores.

A subjetividade dá lugar a critério técnico estruturado.

Indicadores de desempenho que evoluem

Quando o ultrassom é incorporado de forma estruturada, é possível acompanhar métricas específicas:

  • Redução percentual do consumo de graxa;

  • Aumento do intervalo médio entre relubrificações;

  • Redução de falhas atribuídas à lubrificação;

  • Diminuição de corretivas emergenciais;

  • Redução do tempo médio de intervenção; e

  • Melhoria na disponibilidade operacional.

Esses indicadores tornam o programa defensável do ponto de vista gerencial.

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A lubrificação deixa de ser custo invisível e passa a ser investimento com retorno mensurável e rastreável.

Integração com outras técnicas preditivas

O ultrassom não substitui vibração ou temperatura, ele antecipa.

Uma estratégia madura pode seguir esta lógica em camadas:

  • Ultrassom: identifica atrito inicial;

  • Vibração: acompanha evolução estrutural; e

  • Temperatura: protege contra falha catastrófica.

Essa abordagem amplia a janela de planejamento, reduz intervenções emergenciais e melhora a qualidade das decisões de manutenção.

Implementação estruturada

Para que o ultrassom realmente reduza falhas e consumo de graxa, recomenda-se:

  • Classificar ativos por criticidade;

  • Definir pontos de medição padronizados;

  • Criar baseline inicial confiável;

  • Estabelecer critérios de alarme por tendência;

  • Integrar dados ao sistema de manutenção;

  • Treinar equipe para interpretação técnica; e

  • Auditar resultados periodicamente.

Sem processo, o ultrassom vira ferramenta eventual.
Com processo, torna-se diferencial competitivo.

Muito além da economia

A redução de consumo de graxa é um benefício tangível e imediato. No entanto, o maior ganho está na confiabilidade operacional e na previsibilidade dos ativos.

Ao eliminar erros crônicos de lubrificação, a organização reduz:

  • Paradas inesperadas;

  • Riscos operacionais;

  • Custos de ciclo de vida; e

  • Variabilidade de desempenho

E fortalece o pilar central da gestão de ativos: previsibilidade técnica sustentada por dados.

O próximo passo

Se o ultrassom permite reduzir falhas e consumo hoje, a próxima evolução está na integração com sensores inteligentes, monitoramento contínuo e análise automatizada de tendência.

A digitalização está ampliando o papel da lubrificação dentro da estratégia de confiabilidade.

A pergunta deixa de ser “quanta graxa aplicar?” E passa a ser: como transformar dados de atrito em vantagem competitiva sustentável?

Fauzi Mendonça

Engenheiro em Eletrônica

Especializações

Manutenção e Confiabilidade

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Fundador, Diretor Editorial e Colunista da Revista Manutenção, escreve regularmente sobre diversos assuntos relacionados ao cotidiano da Engenharia, Confiabilidade, Gestão de Ativos e Manutenção.

Desenvolvedor Web e Webdesigner, é responsável pelo design, layout, diagramação, identidade visual e logomarca da Revista Manutenção.

Profissional graduado em Engenharia Eletrônica com ênfase em automação e controle industrial, pós graduado em Engenharia de Manutenção, pela Faculdade Anhanguera de Tecnologia (FAT) de São Bernardo e em Engenharia de Confiabilidade, pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Profissional atua há mais de vinte (20) anos com Planejamento e Controle de Manutenção (PCM), em empresas de médio e grande porte, nacionais e multinacionais, onde edificou carreira profissional como Técnico, Programador, Planejador, Analista e Coordenador de PCM.


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