Biodiesel: Confiabilidade e manutenção de geradores

Biodiesel: Confiabilidade e manutenção de geradores

A introdução do biodiesel no Brasil foi impulsionada pela criação do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB), em 2005, que estabeleceu a obrigatoriedade de sua mistura ao diesel fóssil. Desde então, o teor de biodiesel vem sendo gradualmente ampliado, atingindo 15% em 2025, o que posiciona o país como referência na produção do biocombustível e nas políticas de descarbonização. Entretanto, a mistura do biodiesel acelera a degradação do diesel comum, e consequentemente essa expansão impõe desafios técnicos à operação e manutenção de equipamentos a diesel, em especial quanto à confiabilidade de grupos geradores de energia elétrica.

O diesel é um combustível fóssil derivado do petróleo, enquanto o biodiesel é um combustível renovável produzido a partir de óleos vegetais ou gorduras animais. Em função da composição química, o biodiesel é mais suscetível à oxidação e à absorção de umidade, favorecendo a formação de borras e gomas, ácidos e sedimentos ao longo do tempo. Essa característica acelera a degradação do combustível, especialmente durante o armazenamento prolongado específico para operação de grupos geradores de energia elétrica.
Sem controle rigoroso de qualidade e manutenção, os contaminantes podem ocasionar entupimento de filtros, desgaste prematuro de bombas e injetores, falhas de combustão e perda de desempenho dos grupos geradores, representando risco iminente de paradas não programadas, acréscimo nos custos de manutenção e redução da confiabilidade operacional dos sistemas de geração de energia elétrica.
Os grupos geradores asseguram o fornecimento ininterrupto de energia elétrica e comumente integram sistemas de missão crítica, sendo essenciais à continuidade operacional das organizações, cuja falha pode resultar em perdas e danos financeiros, riscos à segurança e, em determinados contextos, potencial risco à vida.

Para assegurar a qualidade do biodiesel, a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) não estabelece um prazo de validade, mas define requisitos técnicos e análises de controle que, na prática, indicam períodos de armazenamento entre 6 (seis) e 12 (doze) meses, conforme as condições de estocagem. O armazenamento inadequado acelera a degradação do combustível, tornando imprescindíveis ações como manutenção dos tanques, filtragem e ensaios periódicos objetivando prevenir falhas operacionais em motores e geradores.

Para as distribuidoras, a ANP estabelece análises mensais de estabilidade à oxidação e destilação do diesel misturado com biodiesel, visando assegurar a conformidade do combustível com as especificações técnicas vigentes. Ademais, o Boletim de Conformidade da Qualidade (CQO) deve permanecer disponível por, no mínimo, 12 (doze) meses após a comercialização, possibilitando a rastreabilidade e a fiscalização do atendimento aos requisitos regulatórios.

No contexto da gestão de manutenção, essas recomendações devem ser incorporadas como rotinas técnicas e procedimentos, integrando o controle, a manutenção preventiva e o monitoramento da qualidade do combustível aos planos de manutenção dos grupos geradores. A priorização do consumo do diesel mais antigo, a drenagem e limpeza periódica dos tanques, o acompanhamento de contaminação e degradação e o uso adequado de aditivos são atividades estratégicas para acrescentar confiabilidade e garantir a disponibilidade dos equipamentos. Dessa forma, a gestão de manutenção consolida uma abordagem preventiva e preditiva, visando mitigar falhas operacionais, custos com manutenções corretivas e demais riscos associados à indisponibilidade dos sistemas de geração de energia elétrica.

Em comparação ao diesel, a garantia da qualidade do biodiesel e da confiabilidade dos grupos geradores representa, inicialmente, custos adicionais para as organizações, relacionados tanto ao custo superior do biodiesel quanto à intensificação das rotinas de manutenção, à realização de análises laboratoriais periódicas, ao uso de aditivos, à adoção de sistemas de circulação e filtragem, bem como à limpeza e ao monitoramento dos tanques de armazenamento. Essas medidas são imprescindíveis para mitigar riscos de perdas e danos e evitar custos adicionais associados a intervenções corretivas emergenciais dos equipamentos. No contexto da sustentabilidade, a mistura de biodiesel ao diesel não se limita aos aspectos ambiental e social, mas abrange também aspectos financeiros, exigindo a integração de estratégias de gestão compatíveis com a criticidade e risco para o negócio.

Fauzi Mendonça

Engenheira Civil

Especializações

Engenharia de Manutenção Industrial
Strategy, Finance and Leading Teams
Negócios Inteligentes e Indústria 4.0
Gestão de Projetos

Redes sociais

Coordenadora de Engenharia no Instituto Central do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), maior complexo hospitalar da América Latina.

Profissional graduada em em Engenheira Civil (2016), cursando Engenharia Elétrica (2026); com especializações em Engenharia de Manutenção Industrial (2021), Negócios Inteligentes e Indústria 4.0 (2023), MBA em Strategy, Finance and Leading Teams (2022), Gestão de Projetos (2023) e certificação Lean Six Sigma Black Belt (2023).

Profissional com mais de 7 (sete) anos de experiência na área de manutenção de edifício hospitalar, atualmente Coordenadora de Engenharia responsável pela gestão e operação da infraestrutura hospitalar do Instituto Central do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP).


loading Biodiesel: Confiabilidade de geradores - Revista Manutenção Não há mais arquivos para exibir