A manutenção de edifícios hospitalares possui particularidades significativas quando comparado ao setor industrial, no ambiente hospitalar manter a disponibilidade da infraestrutura predial não é apenas uma questão econômica, mas principalmente um requisito fundamental para garantir a segurança do paciente e a continuidade na prestação de serviços assistencial.
No ambiente hospitalar, os sistemas críticos envolvem o fornecimento ininterrupto de energia elétrica, água potável, gases medicinais e HVAC (Heating, Ventilation, and Air Conditioning). Esses sistemas não são apenas utilidades, mas insumos primários da assistência. Assim, uma falha ou desvio operacional não representam isoladamente uma parada do processo produtivo, mas podem gerar danos diretos às atividades e equipamentos de suporte imediato à vida e comprometer a continuidade assistencial.
Em hospitais a falha do sistema de HVAC representa risco iminente de infecção hospitalar. O controle de temperatura e umidade em ambiente hospitalar não apenas visa o conforto térmico, mas tem função determinante de inibir vírus, bactérias e fungos no ar, reduzindo a transmissão de doenças infecciosas, principalmente das Unidades de Terapia Intensiva (UTI), centros cirúrgicos, salas limpas e demais ambientes classificados como críticos. Além disso, variações inadequadas de temperatura podem comprometer a integridade e a eficácia de medicamentos, vacinas e insumos, resultando em potenciais perdas terapêuticas, agravamento do estado clínico do paciente e eventos adversos.
Sistemas de água sem controle adequado de temperatura e higienização podem se tornar fontes de disseminação da bactéria Legionella. A proliferação dessa bactéria em hospitais representa um risco significativo de infecção hospitalar, podendo causar formas graves de pneumonia. A transmissão acontece principalmente pela inalação de partículas líquidas ou sólidas contaminadas em suspensão no ar, provenientes do sistema HVAC e de reservatórios de água quando não operados, monitorados e mantidos de forma adequada.
No sistema de gasoterapia hospitalar, a introdução de óleo no sistema de ar comprimido medicinal pode representar um risco grave à saúde do paciente. A contaminação por óleo não apenas gera danos aos componentes do sistema, como também cria um ambiente propício para o desenvolvimento de microrganismos, que ao serem inalados podem causar infecções e agravos do quadro clínico do paciente. Em situações de maior gravidade, os microrganismos introduzidos na corrente sanguínea podem desencadear sepse e condição de risco imediato à vida do paciente.
Em hospitais, a interdependência entre sistemas e processos pode impactar toda a cadeia assistencial. Por exemplo, a parada não programada do sistema de distribuição de água potável, pode interromper o funcionamento da Central de Material Esterilizado (CME) e, por consequência, suspender as atividades no centro cirúrgico, que depende diretamente do instrumental esterilizado para a continuidade das cirurgias, evidenciando que cabe à manutenção a responsabilidade direta por garantir a disponibilidade, bem como as condições operacionais adequada da infraestrutura predial associada.
A exigência da operação contínua e a imprevisibilidade do ambiente hospitalar impõem um desafio adicional ao planejamento e ao controle da manutenção, que demanda adaptar sem negligenciar o rigor na execução das atividades de manutenção. As manutenções constantemente precisam ser reprogramadas e postergada devido ao dinamismo inerente ao ambiente hospitalar. Nesse contexto, a interface e alinhamento com as áreas assistenciais, a estruturação de planos de contingências e a redundância operacional dos sistemas críticos se tornam meios e estratégias fundamentais para garantir o cumprimento das normas técnicas, a continuidade operacional e a segurança do ambiente hospitalar.
Neste ambiente, a tomada de decisão difere de outros setores ao incorporar e priorizar a segurança do paciente, orientando escolhas técnicas, operacionais e gerenciais. O ambiente hospitalar é desafiador não apenas pelos requisitos legais e normativos aplicáveis aos edifícios, mas também por demandar competências técnicas e comportamentais específicas para atuar de forma integrada e comprometida com profissionais da saúde. A atuação do profissional neste ambiente exige visão sistêmica e abrangente dos processos hospitalares e dos fundamentos básicos do setor, para incorporar aspectos assistenciais às rotinas de manutenção tradicionalmente consideradas apenas técnicas.
A complexidade da infraestrutura hospitalar, ainda pouco explorada na literatura e nos fundamentos de engenharia, impulsiona a maturidade do setor para ampliar a abordagem educacional e estratégica para transformar a experiência e o aprendizado dos profissionais da área em conhecimento teórico e prático, aplicável em campo, em resposta à crescente demanda por equipes técnicas e operacionais qualificadas, capazes de integrar critérios técnicos, funcionais, normativos e regulatórios da engenharia às particularidades e exigências do ambiente hospitalar.
